sábado, 17 de maio de 2014

Estamos todos no inferno...

[Não consegui confirmar a veracidade desta entrevista, mas o seu conteúdo reflecte a realidade do Brasil e, na sua essência, o problema actual no mundo inteiro. AZ]

O BRASIL INTEIRO DEVERIA LER ESTA ENTREVISTA
Entrevista com o líder do PCC, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, ao jornal O Globo.
Estamos todos no inferno. Não há solução, pois não conhecemos nem o problema.

 
O GLOBO: Você é do PCC?
- Mais que isso, eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível… vocês nunca me olharam durante décadas… E antigamente era mole resolver o problema da miséria… O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias… A solução é que nunca vinha… Que fizeram? Nada. O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a “beleza dos morros ao amanhecer”, essas coisas… Agora, estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo… Nós somos o início tardio de vossa consciência social… Viu? Sou culto… Leio Dante na prisão…
 
O GLOBO: – Mas… a solução seria…
- Solução? Não há mais solução, cara… A própria idéia de “solução” já é um erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução como? Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma “tirania esclarecida”, que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice (Ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o PCC…) e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até conference calls entre presídios…). E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível. Não há solução.
O GLOBO: – Você não têm medo de morrer?
- Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar… mas eu posso mandar matar vocês lá fora…. Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba… Estamos no centro do Insolúvel, mesmo… Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração… A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala… Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em “seja marginal, seja herói”? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha… Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né? Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante… mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país. Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem.Vocês não ouvem as gravações feitas “com autorização da Justiça”? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.
O GLOBO: – O que mudou nas periferias?
- Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem US$40 milhões como o Beira-Mar não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório… Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado? Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no “microondas”… ha, ha… Vocês são o Estado quebrado, dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra estranha. Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem armados. Vocês vão de três-oitão. Nós estamos no ataque. Vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora, somos globais. Nós não esquecemos de vocês, são nossos fregueses. Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.
O GLOBO: – Mas o que devemos fazer?
- Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O Exército? Com que grana? Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas… O país está quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lula ainda aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas. O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, “Sobre a guerra”. Não há perspectiva de êxito… Nós somos formigas devoradoras, escondidas nas brechas… A gente já tem até foguete anti-tanques… Se bobear, vão rolar uns Stingers aí… Pra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas… Aliás, a gente acaba arranjando também “umazinha”, daquelas bombas sujas mesmo. Já pensou? Ipanema radioativa?
O GLOBO: – Mas… não haveria solução?
- Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a “normalidade”. Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco…na boa… na moral… Estamos todos no centro do Insolúvel. Só que nós vivemos dele e vocês… não têm saída. Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela. Olha aqui, mano, não há solução. Sabem por quê? Porque vocês não entendem nem a extensão do problema. Como escreveu o divino Dante: “Lasciate ogna speranza voi cheentrate!” Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

As cifras negras de Portugal, quase 40 anos após o "25 de Abril de 1974"

A pobreza portuguesa
As cifras negras de Portugal, quase 40 anos após o "25 de Abril de 1974".
Pobres em Portugal: 3 milhões de pessoas.
Desempregados: 1.300.000 indivíduos.
População ativa em Portugal: 5.587.300 indivíduos.
População Prisional: 12.681 reclusos.
Emigrantes Portugueses (até à 3.ª geração): 31,2 milhões pelo mundo fora.
Crianças portuguesas com fome assinalados nas escolas: 12 mil.
Portugueses com fome: 300 mil.
Idosos na solidão: 23 mil idosos a viverem sozinhos ou na solidão (Censo da GNR).
Portugueses sem Médico de família: 700 mil pessoas.
Pessoas sem-abrigo: 3.500.
Pessoas sem água canalizada ou esgotos ao domicílio: 700 mil.
Preços Combustíveis: dos mais altos da Europa e do mundo, Gasolina €1,63, Gasóleo 1,45
Remunerações dos conselhos de administração das 20 empresas portuguesas cotadas na Bolsa quintuplicaram entre 2000 e 2012. Paralelamente, os gestores das empresas portuguesas ganham, em média, cerca de 30 vezes mais do que os trabalhadores das empresas que administram.
As 100 maiores fortunas de Portugal valem 32 mil milhões de euros, o que corresponde a 20% da riqueza total nacional.
PIB Portugal em 2012: 165 mil milhões de euros (contração de 3,2% em relação a 2011)
Crescimento do PIB de 2000 a 2012: (segundo estudos do FMI) o PIB de Portugal cresceu apenas 1,97%.
25,4% (3.7 milhões) dos habitantes em Portugal vivem com menos de 414 euros por mês, ou sejam são os considerados oficialmente (!) como pobres.
41% dos portugueses vivem em privação material, (dificuldade, por exemplo, em pagar as rendas sem atraso, manter a casa aquecida ou fazer uma refeição de carne ou de peixe pelo menos de dois em dois dias).
14,5% por cento dos portugueses vivem em casas sobrelotadas.
População portuguesa abaixo do índice de pobreza: 20% - 2 milhões de pobres, sendo que 1/3 são reformados, 22% são trabalhadores remunerados e 21,2% são trabalhadores por conta própria.
5% da população portuguesa (530 mil pessoas) sofre sérias perturbações no acesso a alimentos.
Défice do Estado Português em 2012: 6,4% do PIB, ou seja 10,6 mil milhões de euros.
25% das crianças portuguesas que entram na escola (375 mil) vêm de famílias onde a pobreza é extrema.
Orçamento da Assembleia da República para 2013: 65 milhões 18 mil 783 euros.
Subsídios aos Partidos Políticos: 64 milhões 195 mil 300 €. (mais 56% do que em 2012)
Orçamento da Presidência da República Portuguesa para 2013: 16 milhões 272 mil 380 € (-0,84% do que em 2012). O Orçamento da Presidência da República portuguesa continua a ser assim superior em dobro ao da Casa Real espanhola que, em 2012, dispôs de um total de 8.264 mil euros, implicando uma redução de 2% relativamente ao ano anterior
Dívida Pública Portuguesa: Dívida total (fim de Março de 2013) : 199.676.349.188€ (123,6% do PIB). Em 1974 eram de 10 mil milhões, correspondendo a 20% do PIB, ou seja, em 39 anos a dívida foi multiplicada por 20 vezes mais.
Juros anuais da dívida pública portuguesa: Segundo o INE, em 2010, os juros da Divida Pública atingiram 6.849 milhões no final de 2012.
Reservas de Ouro do Banco de Portugal: 382.509,58 kg. Em 1974 eram de 865.936, ou seja, em 39 anos desapareceram 483.426,42 kg de ouro o que dá uma média de 13.428,5 kg por ano.
Dívida externa Portuguesa em Fevereiro de 2013: 734,3 mil milhões de Euros (cada Português deve € 69.300,00 ao estrangeiro).
Em 2012, cada cidadão pagou só de juros da dívida pública 754 euros o que, no conjunto, equivale a 4,4 por cento do PIB
Défice da balança comercial portuguesa de transações em Fevereiro de 2013:2.23 mil milhões de Euros.
Beneficiários do Rendimento Social de Inserção: 274.937 pessoas.
Salários dos principais gestores públicos em 2010: Presidente da TAP (Fernando Pinto) € 624.422,21 (igual a 55,7 anos de salário médio anual de cada português), o Presidente da CGD (Faria de Oliveira) recebeu € 560.012,80 (igual a 50 anos de salário médio anual de cada português) e o seu Vice-Presidente (Francisco Bandeira) recebeu € 558.891,00, Salário anual do Governador do Banco de Portugal 243 mil Euros, Salário anual do presidente da Anacom 234 mil Euros.
Despesa total do Estado com reformas de ex-políticos e ex-governantes em 2010: 280 milhões de euros, passando a serem secretos, portanto desconhecidos os números reais desde então, por ordem do Governo e da Assembleia da República.
Toxicodependentes: 50 mil toxicodependentes em tratamento.
Criminalidade em 2012: 385.927 crimes, 22.270 crimes violentos e graves, 419 sequestros, 149 homicídios, raptos e roubos.
Portadores de HIV: 41.035
Prostitutas e pessoas ligadas ao sexo: mais de 30.000.
Eletricidade 61% mais cara que a média da OCDE. Média da OCDE = 0,12 KVW, Portugal = € 0,16 KVW, Grécia = € 0,10 KVW, Espanha = € 0,14 KVW.
Petróleo Doméstico mais caro da Europa: Tonelada métrica em Portugal = € 386,00; Média da OCDE = € 333,00.
Gasolina com carga fiscal mais elevada da Europa, com 64% de impostos.
Gás natural mais caro da Europa = € 713,00; Média OCDE = € 580,00 Kcal; Grécia = € 333,00 Kcal.
Analfabetismo em Portugal, o mais elevado de toda a Europa: 7,5%.

[Dados do INE e do BdP relativos a 2012/2013]

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Movimento pela Abolição da Classe Política

Caros leitores e amigos,

Está iniciado um movimento novo que se destina a despertar consciências: o Movimento para a Abolição da Classe Política! Provavelmente é utópico, mas convido-vos a colocar um "like" nessa página e a fazerem-se "amigos" (Follow) dessa página do Facebook. Se tiverem sugestões, por favor, enviem-nos...Publicitem nos vossos Blogues e entre os vossos amigos, por favor, se acharem por bem.

No mínimo julgamos ser importante marcar posição. Afirmar o nosso repúdio de um Estado usurpado, corrompido, e que apenas existe para taxar opressivamente quem trabalha, ou quer trabalhar, para alimentar as suas famílias ou engrandecer a nação.

https://www.facebook.com/pages/Movimento-pela-Aboli%C3%A7%C3%A3o-da-Classe-Pol%C3%ADtica/566708723367210

 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Sobre o sorteio das Finanças...

[Corre nas redes sociais. Não consegui confirmar mas não me espantaria. Pois não somos governados por corruptos e incompetentes? E quando reagiremos para salvar a nação? Há que abolir a classe política! AZ]
 
Hoje fui às Finanças para pagar o Imposto de Circulação Automóvel. Sobre este assunto nada de importante. Mas sobre o auto que o Estado quer oferecer ao cidadão, fiquei esclarecido de alguns pormenores amargos!
No que diz respeito ao automóvel topo de gama que as Finanças querem sortear e atribuir ao contribuinte zeloso em ajudar o Estado, fornecendo o seu nº de contribuinte, é bom que fiquem cientes de alguns pormenores:
 
a) - quem tiver o azar de lhe sair este presente envenenado, vai ficar com a vida fiscalizada ao pormenor!
b) - não poderá vender a viatura, nos primeiros 5 anos;
c) - o imposto de circulação automóvel, vulgo "selo anual de circulação", não é inferior a 500 €;
d) - quando quiser vender (ao fim de 5 anos), a mesma já teve 2 proprietários, o Estado e o cidadão quem saiu!
 
Pensem bem quando dão o vosso nº de contribuinte.
 

quinta-feira, 27 de março de 2014

Pedro Passos Coelho, o Cortador

[Parodiando, este poema conta bem a natureza do personagem. Corre nas redes sociais. AZ]
 
Cortador de profissão
 

Chamo-me Passos Coelho
Cortador de profissão
Corto ao jovem, corto ao velho,
Corto salário e pensão

Corto subsídios, reformas
Corto na Saúde e na Educação
Corto regras, leis e normas
E cago na Constituição

Corto ao escorreito e ao torto
Fecho Repartições, Tribunais
Corto bem-estar e conforto,
Corto aos filhos, corto aos pais

Corto ao público e ao privado
Aos independentes e liberais
Mas é aos agentes do Estado
Que gosto de cortar mais

Corto regalias, corto segurança
Corto direitos conquistados
Corto expectativas, esperança
Dias Santos e feriados

Corto ao polícia, ao bombeiro
Ao professor, ao soldado
Corto ao médico, ao enfermeiro
Corto ao desempregado

No corte sou viciado
A cortar sou campeão
Mas na gordura do Estado
Descansem, não corto, não.
Eu corto

a Bem da Nação

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O que se passa com a colecção Miró?...

 
[Circula nas redes sociais. AZ]
A Coleção Miró, um lote de 85 obras, composto por óleos, guaches e desenhos, foi adquirido pelo Banco Português de Negócios (BPN), gerido por José Oliveira Costa, a um colecionador japonês em 2006.
Em 2007 a leiloeira Christie's avaliou a coleção em 81,2 milhões de euros e, algum tempo depois, a mesma leiloeira avaliou-a em 150 milhões.
Estas avaliações foram feitas quando a coleção pertencia ao BPN, enquanto banco privado.
Em Novembro de 2008, o BPN foi "nacionalizado" -apenas o lixo tóxico- e, depois de todas as aventuras e desventuras que decorreram da sua nacionalização, a Parvalorem -veículo estatal criado para gerir os ativos tóxicos do BPN- através da sua administração, tornou a venda da Coleção Miró uma das suas principais prioridades tendo, no final de 2013, "fechado" o negócio com a Christie's.
A Parvalorem não cumpriu os prazos legais estabelecidos na Lei de Bases do Património Cultural para pedir a devida autorização para a saída das peças para o estrangeiro e, embora com o parecer negativo da Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC), a 21 de Janeiro de 2014, as obras já estavam expostas na leiloeira Christie’s, em Londres.
Agora vem a notícia mais interessante:
Enquanto a Coleção Miró foi propriedade privada, foi avaliada pela Christie's por valores que ultrapassaram os 150 milhões de euros; agora que a mesma coleção é propriedade do Estado Português, a mesma leiloeira avaliou-a em apenas 36 milhões.
Para a palhaçada ser mais engraçada posso acrescentar que as condições da Christie's são estas: a licitação da venda da obra é de 36 milhões, sendo esta a importância a entregar ao Estado Português; tudo o que ultrapassar esse valor será propriedade da leiloeira.
Perceberam a jogada?
Uma providência cautelar "barrou" a concretização do negócio que, além de ilegal é um crime de lesa-pátria; entretanto, a Christie's já fez saber que continua interessada no negócio. Claro... tenho a certeza que sim...
Alguém tem dúvidas sobre a "transparência" destas negociatas?
 

Carta ao governo escrita por Ruy de Carvalho

Senhores Ministros:

Tenho 86 anos, e modéstia à parte, sempre honrei o meu país pela forma

como o representei em todos os palcos, portugueses e estrangeiros, sem

pedir nada em troca senão respeito, consideração, abertura - sobretudo

aos novos talentos - e seriedade na forma como o Estado encara o meu

papel como cidadão e como artista.


Vivi a guerra de 38/45 com o mesmo cinto com que todos os portugueses

apertaram as ilhargas. Sofri a mordaça de um regime que durante 48

anos reprimiu tudo o que era cultura e liberdade de um povo para o

qual sempre tive o maior orgulho em trabalhar. Sofri como todos, os

condicionamentos da descolonização. Vivi o 25 de Abril com uma

esperança renovada, e alegrei-me pela conquista do voto, como se isso

fosse um epítome libertador.


Subi aos palcos centenas, senão milhares de vezes, da forma que melhor

sei, porque para tal muito trabalhei.


Continuei a votar, a despeito das mentiras que os políticos utilizaram

para me afastar do Teatro Nacional. Contudo, voltei a esse teatro pelo

respeito que o meu público me merece, muito embora já coxo pelo

desencanto das políticas culturais de todos os partidos, sem excepção,

porque todos vós sois cúmplices da acrescida miséria com que se tem

pintado o panorama cultural português.


Hoje, para o Fisco, deixei de ser Actor. e comigo, todos os meus

colegas Actores e restantes Artistas destes país - colegas que muito

prezo e gostava de poder defender.


Tudo isto ao fim de setenta anos de carreira! É fascinante.

Francamente, não sei para que servem as comendas, as medalhas e as

Ordens, que de vez em quando me penduram ao peito?


Tenho 86 anos, volto a dizer, para que ninguém esqueça o meu direito a

não ser incomodado pela raiva miudinha de um Ministério das Finanças,

que insiste em afirmar, perante o silêncio do Primeiro-Ministro e os

olhos baixos do Presidente da República, de que eu não sou actor, que

não tenho direito aos benefícios fiscais, que estão consagrados na

lei, e que o meu trabalho não pode ser considerado como propriedade

intelectual.


Tenho pena de ter chegado a esta idade para assistir angustiado à

rapina com que o fisco está a executar o músculo da cultura

portuguesa. Estamos a reduzir tudo a zero. a zeros, dando cobertura a

uma gigantesca transferência dos rendimentos de quem nada tem para os

que têm cada vez mais.


É lamentável e vergonhoso que não haja um único político com

honestidade suficiente para se demarcar desta estúpida cumplicidade

entre a incompetência e a maldade de quem foi eleito com toda a boa

vontade, para conscientemente delapidar a esperança e o arbítrio de

quem, afinal de contas, já nem nas anedotas é o verdadeiro dono de

Portugal: nós todos!


É infame que o Direito e a Jurisprudência Comunitárias sirvam só para

sustentar pontualmente as mentiras e os joguinhos de poder dos

responsáveis governamentais, cujo curriculum, até hoje, tem

manifestamente dado pouca relevância ao contexto da evolução

sociocultural do nosso povo. A cegueira dos senhores do poder

afasta-me do voto, da confiança política, e mais grave ainda, da

vontade de conviver com quem não me respeita e tem de mim a imagem de

mais um velho, de alguém que se pode abusiva e irresponsavelmente

tirar direitos e aumentar deveres.


É lamentável que o senhor Ministro das Finanças, não saiba o que são

Direitos Conexos, e não queiram entender que um actor é sempre autor

das suas interpretações - com diretos conexos, e que um intérprete

e/ou executante não rege a vida dos outros por normas de Exel ou por

ordens "superiores", nem se esconde atrás de discursos catitas ou

tiradas eleitoralistas para justificar o injustificável,

institucionalizando o roubo, a falta de respeito como prática dos

governos, de todos os governos, que, ao invés de procurarem a

cumplicidade dos cidadãos, se servem da frieza tributária para

fragilizar as esperanças e a honestidade de quem trabalha, de quem

verdadeiramente trabalha.


Acima de tudo, Senhores Ministros, o que mais me agride nem é o facto

dos senhores prometerem resolver a coisa, e nada fazer, porque isso já

é característica dos governos: o anunciar medidas e depois voltar

atrás. Também não é o facto de pôr em dúvida a minha honestidade

intelectual, embora isso me magoe de sobremaneira. É sobretudo o nojo

pela forma como os seus serviços se dirigem aos contribuintes,

tratando-nos como criminosos, ou potenciais delinquentes, sem olharem

para trás, com uma arrogância autista que os leva a não verem que há

um tempo para tudo, particularmente para serem educados com quem gera

riqueza neste país, e naquilo que mais me toca em especial, que já é

tempo de serem respeitadores da importância dos artistas, e que devem

sê-lo sem medos e invejas desta nossa capacidade de combinar verdade

cénica com artifício, que é no fundo esse nosso dom de criar, de ser

co-autores, na forma, dos textos que representamos.


Permitam-me do alto dos meus 86 anos deixar-lhes um conselho:

aproveitem e aprendam rapidamente, porque não tem muito tempo já.

Aprendam que quando um povo se sacrifica pelo seu país, essa gente, é

digna do maior respeito. porque quem não consegue respeitar, jamais

será merecedor de respeito!


RUY DE CARVALHO