sábado, 11 de junho de 2011

Portugal: que futuro?!

Este pequeno enclave ocidental a que chamamos Portugal vive tempos muito dificeis, resultado de uma governação corrupta, falta de quadro competentes e uma mentalidade que só uma educação sistemática e esclarecida poderia eliminar. Os eleitores penalizaram o P(N)S graças a uma lucidez in extremis, mas tal não irá impedir de José Sócrates ser premiado pelo Regime que o colocou à frente do pior governo na história recente de Portugal. As consequências são de tal ordem que merecia no futuro estudos aprofundados sobre o que permitiu esta sequência de acontecimentos, para que se permita balizar o que jamais deverá ser feito a um povo: destruiu-se a dignidade do professor, do médico, do jurista; acicatou-se a discórdia entre colegas de qualquer profissão, desviando-se a energia que deveria ser conduzida para mudar o que mal está; precarizou-se o emprego, ao mesmo tempo que se ocupava lugares de liderança com amigaços do partido e familiares, e assim impedindo que os talentos naturais que o país tem pudessem adquirir o poder que deveriam ter para engrandecer o país; colocaram-se em lugares de decisão determinados sujeitos claramente com a tarefa de ocultar toda a espécie de crimes, que nunca foram resolvidos; etc, etc, etc. Só um governo profundamente pérfido pode deixar um povo interrogando-se sobre qual o futuro que lhe está destinado!...O Presidente da República também, a meu ver, Abraão Zacuto, não cumpriu nem cumpre o seu papel, permitindo a perpetração de um autêntico crime contra os Portugueses. Um povo esmagado pelo peso do Estado, instrumento de extorsão para benefício de alguns, a Banca e grandes grupos económicos. A História quiçá o julgará, assim como todos os responsáveis desta calamidade, quando houver neste país sociólogos e historiadores com faculdade para o julgar (porque é notório que não há, não se ouvem, nem se lêem), já que para nós, desprezados escravos de um império global, só nos resta sermos perseguidos pela justiça (sendo hilariante pois ela é paga por todos nós, para nos perseguir...que trágico destino!).
Porém, no mundo inteiro tem vindo a emergir uma consciência global dos abusos de um sistema de governação baseado no excessivo poder de um pequeno número de famílias que fazem indevidamente deste planeta uma coutada privada. Em Portugal também assim tem sido ao longo de séculos, mas agora surge a necessidade histórica de uma bifurcação que se avizinha, do rompimento com este modelo de sub-desenvolvimento. Sabe-se com muita clareza quem são os atores, quais os seus desígnios, o que eles não querem fazer deste país. Esta nova realidade que se apresenta para todos nós, fará dos atuais modelos de governação, marionetes insustentáveis, que levará inevitavelmente à implosão do sistema capitalista selvagem que é característico dos nossos tempos. Nem grupos de Bilderberg, nem maçonarias escônditas, nem monarquias modernas, parecem estar esclarecidas, ou terem a lucidez suficiente para resolver o que se avizinha. O que presenciamos todos, face ao imenso teatro do mundo onde cada um desempenha o seu papel, é uma extrema loucura de alguns, plenos discípulos da via filosófica da violência, avareza e ambição.
É neste contexto que impende sobre o novo governo de Pedro Passos Coelho um dramático momento histórico que ditará o futuro de Portugal, faz séculos que é apenas um insiginificante ator marginal na esfera do mundo. O que clama à evidência é: ou o povo ganha o direito que naturalmente tem de ter qualidade de vida, ou este país converte-se numa turba de escravos, incultos, incapazes, colónia de potências superiores.

-Abraão Zacuto.

Portugal tem futuro?

Portugal tem futuro?


por
Nuno Valério
Professor do ISEG
31 Maio 2006
Tem-se tornado habitual nos últimos anos em Portugal encarar a sociedade portuguesa como uma sociedade sem futuro, quer a nível colectivo quer a nível individual. Generalizou-se a ideia de que somos uma sociedade em empobrecimento relativo, se não mesmo absoluto, sem perspectivas de empregar produtivamente os seus membros activos nem de proporcionar pensões condignas ao seus membros em idade de reforma.
É claro que o mundo mudou e as suas mudanças condicionam a sociedade portuguesa de modos que não faziam geralmente parte das expectativas e dos planos dos portugueses. Expansão demográfica de base fisiológica, existência de uma economia nacional, ausência de constrangimentos supranacionais à soberania política e casticismo cultural são, para o bem e para o mal, estruturas do passado. Para ter futuro, a sociedade portuguesa tem de adaptar-se a uma demografia cuja base fisiológica estagnou, a uma economia mergulhada numa economia europeia que adquiriu muitas características de uma economia nacional e numa economia mundial cujas regiões são cada vez mais interdependentes, a uma vida política em que os órgãos de soberania são em grande medida meros interlocutores em negociações internacionais cujos resultados se nos imporão de bom ou mau grado, a uma aculturação constante com outras sociedades; e os portugueses têm de adaptar-se a uma sociedade portuguesa com essas estruturas.
Porém, nada disto significa que Portugal se torne necessariamente mais pobre, mesmo em termos relativos, sobretudo em termos absolutos; nada disto significa que Portugal não possa ter actividades económicas capazes de proporcionar ocupação e rendimento aos seus cidadãos activos e transferências aos seus cidadãos inactivos. Significa, todavia, que a sociedade portuguesa tem de modificar algumas das suas instituições e os portugueses têm de modificar alguns dos seus comportamentos e expectativas, para que seja possível a sociedade portuguesa continuar a ser uma sociedade altamente desenvolvida e próspera no contexto mundial.
Preservação dos recursos naturais, melhor preparação dos recursos humanos, investimento em capital físico e aperfeiçoamento das instituições serão possivelmente os quatro tópicos em que poderão resumir-se os desafios da mudança indispensável para que a sociedade portuguesa não entre num processo efectivo de decadência. Talvez o último aspecto seja o mais difícil dos quatro. Isto porque frequentemente aparece como algo que, real ou supostamente, prejudica grupos de interesse com algum poder de resistência à mudança. Encontrar forma de vencer essas resistências à mudança institucional será, por isso, a questão crucial da vida portuguesa dos próximos tempos.

Portugal: análise perfeita

Portugal: Análise perfeita

21.04.2011 | Fonte de informações:

Pravda.ru

Ponta Delgada, 10 de Abril de 2011

Os políticos do chamado "Arco do Poder" continuam a ceder aos interesses espúrios do agiotismo internacional. Não cremos que sejam ignorantes e menos ainda, inocentes. A última cartada socrática de solicitar ajuda financeira ao FEEF (Fundo Europeu de Estabilização Financeira), onde a presença tutelar do FMI é inelutável, demonstra como a nossa Elite Politica não tem quaisquer escrúpulos de natureza patriótica quando se trata de obedecer às ordens do Sistema Financeiro Internacional, de que a banca portuguesa, incluindo o Banco de Portugal, segue caninamente. Veja-se que o próprio Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu, "pressionou" os bancos portugueses a fazerem um ultimato ao Governo de José Sócrates no sentido deste pedir ajuda financeira, conforme tem sido noticiado...
A este respeito, se alguém ainda tem dúvidas sobre a honorabilidade dos banqueiros portugueses, e sobre a sua articulação "descarada" com os Centros do Capital Financeiro Internacional, deve deixar de as ter, porque é tão óbvio que só um distraído não as percebe... Ao menos estes acontecimentos põem a nu uma realidade que os homens de mão do sistema desdenham, procurando reduzir ao ridículo os que há muito denunciam a existência de uma Elite Global a comandar o destino da Humanidade e que tem no Sistema Financeiro Internacional o principal instrumento de submissão dos povos.
A decisão da banca portuguesa de cortar o crédito ao Estado, para além de imoral e até inédita, é a prova acabada de que o Interesse Nacional não é uma prioridade na sua escala de valores. Os banqueiros portugueses morderam de facto a mão de quem os tem sempre ajudado. Da última vez, final de 2008, o governo disponibilizou cerca de 9 mil milhões de Euros em avales para suprir problemas de liquidez nos bancos, tendo inclusive nacionalizado um banco falido, BPN (Banco Português de Negócios), que usou e abusou de aplicações financeiras de alto risco. O Governo justificou a sua decisão com a necessidade de garantir um "clima de confiança"... Do nosso ponto de vista, trata-se de um argumento no mínimo falacioso, que será mais tarde substituído por outro, não menos eufemístico, "a acalmia dos mercados", que tanto se evoca para justificar as medidas discricionárias que se tomam na defesa do Sistema Financeiro Internacional. Por que será que o agiotismo está sempre tão deprimido, carecendo de tratamento psiquiátrico? Será por má consciência dos seus actos?
Na verdade, o Estado, ao longo da História, sempre procurou satisfazer os "caprichos" da banca, como se fosse uma "Prima-dona"... Com o advento do Neoliberalismo, abandonou a sua função histórica de apoio ao investimento produtivo, logo social, e deu lugar à "Industria Maldita" da especulação financeira, como alguém recentemente muito bem classificou, tendo a partir daí se tornado muito mais refinada nas suas exigências... Desde logo exigindo um tratamento de excepção em matéria de tributação. O Estado perdoa-lhe cerca de 1/3 do IRC, imposto sobre os lucros, da taxa que exige sem remissão aos agentes de qualquer outra actividade empresarial. Mais, tal imposto é calculado sobre resultados depurados de lucros obtidos em investimentos colaterais, nomeadamente nas off-shores. Daí que seja possível aos banqueiros apresentarem lucros em tempo de crise, ao mesmo tempo que diminuem, percentualmente, a sua contribuição para os cofres da Fazenda Pública, como recentemente foi anunciado. Tal, além de imoral, mostra como a actividade bancária está a trabalhar em "roda livre", sem qualquer receio de censura da opinião pública e menos ainda dos Governos. Fica assim claro que o sector bancário é a actividade económica privada mais protegida pelo Estado, funcionando em cartel e em regime de oligopólio, o que contradiz flagrantemente o espírito da Economia de Mercado que tanto se defende e apregoa. Pudera! Tal protecção contrasta com a ausência de verdadeiras políticas de apoio financeiro e económico às forças do Trabalho. Veja-se como o comércio da quinquilharia chinesa no nosso mercado destruiu a pequena e média indústria e o comércio do ramo. Veja-se como a entrada de grandes superfícies comerciais de Capital Estrangeiro destruiu o comércio a varejo de milhares de portugueses. Se alguém ainda tem dúvidas do que acabamos de afirmar, basta olhar para os números das falências e do subsequente desemprego, que já roça os 700 mil trabalhadores, que assistimos desde que os sucessivos governos escancararam a porta à Globalização Económica. Alguém já viu algum banco português encerrar as portas por causa da concorrência externa?
Estas contradições são apenas aparentes e visam o mesmo, cujo sentido não pode ser percebido pelo incauto. Estão eivadas de um sinistro calculismo político e apresentam-se como algo "natural" inelutável... Contudo os mais argutos já perceberam que há uma correlação directa entre uma banca cada vez mais protegida pelos sucessivos governos nacionais e o desinvestimento na Economia, com o consequente destruição do Estado Social. A propaganda de convencimento da opinião pública faz o resto... Dá que pensar, não?
A sanha especulativa conta também com a distracção do Estado, para não lhe chamarmos outra coisa... Vejamos. O crescimento da Dívida Pública interessa sobremaneira aos investidores, institucionais ou não, do chamado Mercado de Derivados Financeiros sobre Obrigações do Tesouro, um segmento muito procurado pelos especuladores financeiros. Os bancos privados começam a saga especulativa emprestando dinheiro ao Estado a taxas entre 6% a 10%, conforme o período de maturação, que tomam do BCE a 1%. Poucas vezes o Banco Central Europeu fê-lo directamente e quando o fez, as taxas foram sempre superiores a 1%. Por quê? Os deuses que respondam... E não se contentam apenas com os juros que sobem à medida que as agências de notação financeira baixam o "rating" dos devedores. Lançam naquele mercado "papéis" sobre os créditos tomados pelo Governo, onde oferecem rendimentos supimpas entre 18% a 36%, ou mais, no curto prazo, concorrendo inclusivamente com o próprio Estado, já que este também vende Títulos do Tesouro, mas obviamente com rendimentos muito inferiores. Aqui se levanta a questão: como podem pagar tão aliciante remuneração, em tão curto espaço de tempo? A resposta só um orago a pode dar... Sem querermos ser maldizentes, dá para perceber porque os banqueiros e os especuladores de todos os matizes acarinham tanto as off-shores, que é uma autêntica lavandaria de dinheiro de proveniência ilícita. É só somar 2 e 2...
A lógica do Sistema Financeiro Internacional não vai no sentido de ajudar o desenvolvimento das Economias Nacionais para que possam honrar as Dividas Soberanas. Trata-se de um vil engano. Na verdade o que se pretende é o contrário, ou seja, criar dependências aos Estados para que estes mantenham aquele a funcionar indefinidamente. E os Governos, solícitos, não se fazem de rogados, embora gritem pelo "interesse nacional e patriótico". Enganam-se portanto aqueles que julgam haver alguma "bondade" no "auxílio" financeiro que tanto os "especialistas" de serviço reclamam. As instituições financeiras, como o FMI, apenas procuram garantir aos bancos o retorno dos créditos e da rendibilidade destes, nos prazos estabelecidos, independentemente dos custos económicos e sociais que possam causar. O maior medo dos credores é terem que renegociar as dívidas, naquilo que se chama "Reestruturação da Dívida", porque perdem a rendibilidade expectável dos créditos disponibilizados e, como são Sociedades Anónimas, não podem frustrar a expectativa de dividendos dos accionistas. Não vêm pois para nos ajudar, mas para extorquir aos rendimentos do Trabalho recursos tangíveis que valorizem o seu património mobiliário, Capital que em grande parte só existe num monitor de computador... e acentuar a dependência financeira dos Estados.
O incrível disto tudo é que os bancos conseguem financiar os Estados sem praticamente gastar um tostão do seu bolso... Primeiro, através da chamada Reserva Fraccionada, que lhes permite emprestar cerca de 10 vezes dos valores em depósito, o que significa que ganham dinheiro tangível, juros, com dinheiro que não existe de facto... usando e abusando da confiança que todos nós depositamos neles, ou seja, criam dinheiro do nada... Segundo, no caso do FEEF, que inclui o FMI, os fundos criados são gerados pelas quotas de cada Estado Membro, valores que, por sua vez, são retirados aos impostos dos contribuintes. Significa que uma quota-parte do financiamento que o Governo está a negociar com aquelas instituições é paga pelos portugueses com o seu Trabalho. Ora toma, que é democrático!
Esta dependência financeira dos Estados, sobretudo os de economia mais débil, como a de Portugal, também interessa ao eixo Franco-Alemão, preocupado que está com o valor da Moeda Única e com a integridade da sua Economia. Daí os recados e reprimendas da "premier" alemã Ângela Merkel ao Governo perdulário de José Sócrates. A consequência mais danosa para a Economia Nacional, desde que Portugal se integrou no Mercado Comum Europeu, foi a destruição do nosso aparelho produtivo, que levou ao encerramento de muitas actividades económicas que hoje bastante falta nos fazem para combater a actual Crise Económica. Tal situação foi ainda agravada com a adesão ao Euro, uma moeda alienígena e sobrevalorizada administrativamente pelo BCE, o banco emissor. Como importamos mais que exportamos, o mercado interno tem uma carência permanente de divisas. Ora, se por acaso o país deixasse de receber financiamento externo, os exportadores alemães, franceses e outros ficavam a ver navios... Daí todo o interesse que Portugal não entre de facto em ruptura financeira, mas apenas que não retome a sua Economia... havendo pois uma gestão da nossa dependência externa no sentido de não prejudicar esses interesses, feita com a conivência dos políticos do chamado "Arco do Poder", que sempre foram "testas de ferro" do Sistema Financeiro Internacional.
Mas não somente a Direita e o Centro Esquerda têm contribuído para chegarmos ao caos financeiro que vivemos. A Esquerda também tem ajudado ao regabofe... Sob bonitas bandeiras sociais na defesa dos trabalhadores e dos mais carenciados, sem olhar a custos, mais não faz que criar "entropias" à Economia Nacional e nesse sentido faz o jogo da Oligarquia Financeira Internacional. No fundo, conscientemente ou não (Estamos em crer que a maioria dos seus militantes age de boa fé...), está a aumentar a procura do lado dos recursos, enquanto aquela, provocando sistematicamente a escassez de meios monetários, aumenta a dependência de Portugal em relação aos Centros Internacionais de Capital Financeiro. Vide por exemplo, as sucessivas greves, nomeadamente em empresas com participações de Capital Público, num momento de grave falta de dinheiro nos Cofres do Estado. Será que os Sindicatos não percebem a insensatez dessa luta? Não cremos. O curioso é que nos países, como na antiga URSS, na Coreia do Norte, na China e em Cuba, tais bandeiras não passam de uma miragem, onde as greves a existirem são fortemente reprimidas, para não falar da falta de Liberdade Politica e outras, sendo certo que também do lado do Capitalismo, o Estado Social é mitigado cada vez mais, pelo que "quanto pior, melhor"...
Artur Rosa Teixeira
(artur.teixeira1946@gmail.pt)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Financial Times arrasa Sócrates

*Wolfgang Munchau no Financial Times (09.05.2011)*



"*The political reason this crisis goes from bad to worse is an unresolved
collective action problem. Both sides are at fault. The tight-fisted,
economically illiterate northern parliamentarian is as much to blame as the
southern prime minister who cares only about his own backyard. The Greek
government played it relatively straight but Portugal's crisis management
has been, and remains, appalling.*

*José Sócrates, prime minister, has chosen to delay applying for a financial
rescue package until the last minute. His announcement last week was a
tragi-comic highlight of the crisis. With the country on the brink of
financial extinction, he gloated on national television that he had secured
a better deal than Ireland and Greece. In addition, he claimed the agreement
would not cause much pain. When the details emerged a few days later, we
could see that none of this was true. The package contains savage spending
cuts, freezes in public sector wages and pensions, tax rises and a forecast
of two years' deep recession.*

*You cannot run a monetary union with the likes of Mr Sócrates, or with
finance ministers who spread rumours about a break-up. Europe's political
elites are afraid to tell a truth that economic historians have known
forever: that a monetary union without a political union is simply not
viable. This is not a debt crisis. This is a political crisis. The eurozone
will soon face the choice between an unimaginable step forward to political
union or an equally unimaginable step back. We know Mr Schäuble has
contemplated, and rejected, the latter. We also know that he prefers the
former. It is time to say so.*"

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*Sócrates arrasado em artigo no "Financial Times"*



O jornal britânico "Financial Times" acusa o Primeiro-ministro português de
só querer saber "do seu quintalzinho" e de ter adiado até ao último minuto o
anúncio sobre o pedido de ajuda.

Numa crónica assinada por Wolfgang Munchau, o ponto alto da crise foi o
anúncio *"trágico-cómico" *da semana passada de José Sócrates, que, com o
país à beira da extinção fi nanceira, apareceu nas televisões nacionais a
elogiar o acordo fi rmado com a *troika*.

O cronista lembra ainda as garantias do Primeiro-ministro de que o acordo
não iria trazer grande sofrimento, desmentidas dias depois: o plano prevê
grandes cortes na despesa, congela salários e pensões, aumenta impostos e
prevê dois anos de recessão.

Por isso, conclui que o problema da Europa é político, não económico: "A
razão política pela qual esta crise vai de mal a pior é um problema de
actuação colectiva que continua por resolver. Ambos os lados têm falhado.

O deputado avarento e economicamente iletrado do Norte da Europa é tão
responsável como o primeiro-ministro do Sul da Europa que só se preocupa com
o seu quintalzinho. O Governo grego comportou-se de forma relativamente
correcta, mas a forma como Portugal tem gerido, e continua a gerir, a crise
é assustadora".

Na opinião de Munchau, a Zona Euro vai confrontar-se, em breve, com uma
escolha, porque, "como os historiadores económicos sabem desde sempre, uma
união monetária sem uma união política não é viável".

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A Política da Mentira

Deixo-vos aqui esta tradução para reflectir e se auto-educar para as eleições de 5 de Junho...

Excerto da Introdução do livro "La Politique du Mensonge", de Roger-Gérard Schwartzenberg.
[Tradução livre de Abrão Zacuto]

«Podemos continuar assim? E a política pode ela continuar o que ela é a maioria das vezes hoje? Esta experiência e artifício de ilusão que corrói a confianca na democracia. Na vida pública, daqui para a frente apercebida como espaço dos sinulacros e estratagemas. Como um jogo de traições e de falsas aparências. Fora da realidade. Da verdade.
Quem pode beneficiar deste mal-estar e deste descrédito, esta perda de confiança nas instituições públicas? Senão os defensores das soluções extremas? Se não os adversários da democracia que vemos por todo o lado a trabalhar como nos anos 1930?
Podemos nós ir de deriva em deriva? Ontem, já assim era, o Estado espectáculo. Hoje, a política mentirosa.
Desde há vários anos, a sociedade política tornou-se um lugar de atuação. Um universo de representação. E mesmo quase uma empresa de exibição permanente.
Com a personalzação crescente do poder, o "star system" ganhou a vida pública, desde então centrado em torno daqueles que disputam o primeiro papel. Retratos gigantes em posters, grandes planos de televisão, slogans de publicidade: todo um mundo de aparências suplanta a realidade.
A vida política tornou-se num show mediatizado. Assim vai a média política. A política feita sobre medida pelos media. Aquela que transforma os cidadãos em espectadores constrangidos de um poder sempre em representação. Em testemunhos passivos de uma classe política engajada num exercício de ostentação.
O Estado espectáculo, já instalado desde há muitos anos, transforma a democracia em parada. Em encenação. Mas não corrompe necessariamente. Concerteza, o espectáculo é permanente, mas não é sempre simulacro. Concerteza, há sempre exibição, mas nem sempre há truques. Vontade deliberada de enganar. De iludir.
Tal não é o caso de outra deriva, mais lamentavel ainda, que se desenvolve actualmente no seio do sistema do parecer, tornada comédia das aparências.
Hoje em dia, a mentira invade cada vez mais a política. E relega a verdade para fora dos muros da democracia. Como uma categoria tornada arcaica ou obsoleta. Inadaptada aos tempos presentes.
No fundo, sempre existiu duas concepções da política. Para uns, esta se confunde com a ética; ela é a aplicação da moral na condução das sociedades. Para outros, discípulos mais ou menos conscientes de Maquiavel, a política é um jogo de astúcias e de trapaça, um exercício de mentira e simulação.
A primeira tradição, que poderemos designar «política verdade», fundamenta-se sobre a sinceridade do discurso e o respeito pelo cidadão. Probidade, lealdade, rigor. Para ela, a democracia é antes de mais um código moral. Nada de política sem ética. Séneca ou Montesquieu não estão longe.
A segunda concepção, que poderemos chamar «política mentira», é a sua antítese. Aí, o poder toma-se e exerce-se pelo engano, pela trapaça. Está nos antípodas da moral comum. Aí, para tomar o poder e governar, não se trata mais de convencer pela franqueza do propósito e rectidão dos argumentos, mas do abusar. De iludir. Como se a vida pública torna-se em parada de sedução ou comércio de ilusões.
Esta segunda visão prevalece hoje em dia. Com ela, a política torna-se fogo de artifício. E, por vezes, exercício de impostura. Palavras e imagens e suportes: tudo parece se combinar para melhor enganar o público.
Palavras, palavras, palavras. A política torna-se a arte das falsas confissões. Das falsas promessas. E dos falsos sermões.
Em lugar de informar com franqueza os eleitores sobre as verdadeiros questões, ela é com frequência um exercício de fuga face à realidade. Tão prosaica. Frente à realidade. Tão constrangedora.
Cavalete e um planalto: as campanhas eleitorais regorgitam de promessas ilusórias e de previsões otimistas. Deixando na sombra as dificuldades e os constrangimentos do real. Para cultivar o sonho. «Sonhos, mentiras», como diz o provérbio.»

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Crónica de Urbano Tavares Rodrigues


URBANO TAVARES RODRIGUES

Pertenço a uma geração que se tornou adulta durante a II Guerra Mundial. Acompanhei com espanto e angústia a evolução lenta da tragédia que durante quase seis anos desabou sobre a humanidade. Desde a capitulação de Munique, ainda adolescente, tive dificuldade em entender porque não travavam a França e a Inglaterra o III Reich alemão. Pressentia que a corrida para o abismo não era uma inevitabilidade. Podia ser detida. Em Maio de 1945, quando o último tiro foi disparado e a bandeira soviética içada sobre as ruínas do Reichstag, em Berlim, formulei como milhões de jovens em todo o mundo a pergunta «Como foi possível?» Hitler suicidara-se uma semana antes. Naqueles dias sentíamos o peso de um absurdo para o

qual ninguém tinha resposta. Como pudera um povode velha cultura, o alemão, que tanto contribuíra para o progresso dahumanidade, permitir passivamente que um aventureiro aloucado exercesse durante 13 anos um poder absoluto. A razão não encontrava explicação para esse absurdo que precipitou a humanidade numa guerra apocalíptica (50 milhões de mortos) que destruiu a Alemanha e cobriu de escombros a Europa? Muitos leitores ficarão chocados a por evocar, a propósito da crise portuguesa, o que se passou na Alemanha a partir dos anos 30. Quero esclarecer que não me passa sequer pela cabeça estabelecer paralelos entre o Reich hitleriano e o Portugal agredido por Sócrates. Qualquer analogia seria absurda. São outros o contexto histórico, os cenários, a dimensão das personagens e os efeitos. Mas hoje também em Portugal se justifica a pergunta «Como foi possível?» Sim. Que estranho conjunto de circunstâncias conduziu o País ao desastre que o atinge? Como explicar que o povo que foi sujeito da Revolução de Abril tenha hoje como Primeiro-ministro, transcorridos 35 anos, uma criatura como José Sócrates? Como podem os portugueses suportar passivamente há mais de cinco anos a humilhação de uma política autocrática, semeada de escândalos, que ofende a razão e arruína e ridiculariza o Pais perante o Mundo? O descalabro ético socrático justifica outra pergunta: como pode um Partido que se chama Socialista (embora seja neoliberal) ter desde o início apoiado maciçamente com servilismo, por vezes com entusiasmo, e continuar a apoiar, o desgoverno e despautérios do seu líder, o cidadão Primeiro-ministro? Portugal caiu num pântano e não há resposta satisfatória para a permanência no poder do homem que insiste em apresentar um panorama triunfalista da política reaccionária responsável pela transformação acelerada do país numa sociedade parasita, super endividada, queconsome muito mais do que produz. Pode muita gente concluir que exagero ao atribuir tanta responsabilidade pelo desastre a um indivíduo. Isso porque Sócrates é, afinal, um instrumento do grande capital que o colocou à frente do Executivo e do imperialismo que o tem apoiado. Mas não creio neste caso empolar o factor subjectivo. Não conheço precedente na nossa História para a cadeia de escândalos maiúsculos em que surge envolvido o actual Primeiro-ministro. Ela é tão alarmante que os primeiros, desde o mistério do seu diploma de engenheiro, obtido numa universidade fantasmática (já encerrada), aparecem já como coisa banal quando comparados com os mais recentes.

O último é nestes dias tema de manchetes na Comunicação Social e já dele se fala além fronteiras. É afinal um escândalo velho, que o Presidente do Supremo Tribunal e o Procurador-geral da República tentaram abafar, mas que retomou actualidade quando um semanário divulgou excertos de escutas do caso Face Oculta. Alguns despachos do procurador de Aveiro e do juiz de instrução criminal do Tribunal da mesma comarca com transcrições de conversas telefónicas valem por uma demolidora peça acusatória reveladora da vocação liberticida do governo de Sócrates para amordaçar a Comunicação Social. Desta vez o Primeiro-ministro ficou exposto sem defesa. As vozes de gente sua articulando projectos de controlo de uma emissora de televisão e de afastamento de jornalistas incómodos estão gravadas. Não há desmentidos que possam apagar a conspiração. Um mar de lama escorre dessas conversas, envolvendo o Primeiro-ministro. A agressiva tentativa de defesa deste afunda-o mais no pântano. Impossibilitado de negar os factos, qualifica de «infame» a divulgação daquilo a que chama «conversas privadas». Basta recordar que todas as gravações dos diálogos telefónicos de Sócrates com o banqueiro Vara, seu ex-ministro foram mandadas destruir por decisão (lamentável) do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, para se ter a certeza de que seriam muitíssimo mais comprometedoras para ele do que as «conversas privadas» que tanto o indignam agora, divulgadas aliás dias depois de, num restaurante, ter defendido, em amena «conversa» com dois ministros seus, a necessidade de silenciar o jornalista Mário Crespo da SIC Noticias. Não é apenas por serem indesmentíveis os factos que este escândalo difere dos anteriores que colocaram José Sócrates no banco dos réus do Tribunal da opinião pública. Desta vez a hipótese da sua demissão é levantada em editoriais de diários que o apoiaram nos primeiros anos e personalidades políticas de múltiplos quadrantes afirmam sem rodeios que não tem mais condições para exercer o cargo. O cidadão José Sócrates tem mentido repetidamente ao País, com desfaçatez e arrogância, exibindo não apenas a sua incompetência e mediocridade, mas, o que é mais grave, uma debilidade de carácter incompatível com a chefia do Executivo. Repito: como pode tal criatura permanecer como Primeiro-ministro? Até quando, Sócrates, teremos de te suportar? "Como explicar que o povo que foi sujeito da Revolução de Abril tenha hoje como Primeiro-ministro, transcorridos 35 anos, uma criatura como José Sócrates? Como podem os portugueses suportar passivamente há mais de cinco anos a humilhação de uma política autocrática, semeada de escândalos, que ofende a razão e arruína e ridiculariza o País perante o Mundo?"