quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O que se passa com a colecção Miró?...

 
[Circula nas redes sociais. AZ]
A Coleção Miró, um lote de 85 obras, composto por óleos, guaches e desenhos, foi adquirido pelo Banco Português de Negócios (BPN), gerido por José Oliveira Costa, a um colecionador japonês em 2006.
Em 2007 a leiloeira Christie's avaliou a coleção em 81,2 milhões de euros e, algum tempo depois, a mesma leiloeira avaliou-a em 150 milhões.
Estas avaliações foram feitas quando a coleção pertencia ao BPN, enquanto banco privado.
Em Novembro de 2008, o BPN foi "nacionalizado" -apenas o lixo tóxico- e, depois de todas as aventuras e desventuras que decorreram da sua nacionalização, a Parvalorem -veículo estatal criado para gerir os ativos tóxicos do BPN- através da sua administração, tornou a venda da Coleção Miró uma das suas principais prioridades tendo, no final de 2013, "fechado" o negócio com a Christie's.
A Parvalorem não cumpriu os prazos legais estabelecidos na Lei de Bases do Património Cultural para pedir a devida autorização para a saída das peças para o estrangeiro e, embora com o parecer negativo da Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC), a 21 de Janeiro de 2014, as obras já estavam expostas na leiloeira Christie’s, em Londres.
Agora vem a notícia mais interessante:
Enquanto a Coleção Miró foi propriedade privada, foi avaliada pela Christie's por valores que ultrapassaram os 150 milhões de euros; agora que a mesma coleção é propriedade do Estado Português, a mesma leiloeira avaliou-a em apenas 36 milhões.
Para a palhaçada ser mais engraçada posso acrescentar que as condições da Christie's são estas: a licitação da venda da obra é de 36 milhões, sendo esta a importância a entregar ao Estado Português; tudo o que ultrapassar esse valor será propriedade da leiloeira.
Perceberam a jogada?
Uma providência cautelar "barrou" a concretização do negócio que, além de ilegal é um crime de lesa-pátria; entretanto, a Christie's já fez saber que continua interessada no negócio. Claro... tenho a certeza que sim...
Alguém tem dúvidas sobre a "transparência" destas negociatas?
 

Carta ao governo escrita por Ruy de Carvalho

Senhores Ministros:

Tenho 86 anos, e modéstia à parte, sempre honrei o meu país pela forma

como o representei em todos os palcos, portugueses e estrangeiros, sem

pedir nada em troca senão respeito, consideração, abertura - sobretudo

aos novos talentos - e seriedade na forma como o Estado encara o meu

papel como cidadão e como artista.


Vivi a guerra de 38/45 com o mesmo cinto com que todos os portugueses

apertaram as ilhargas. Sofri a mordaça de um regime que durante 48

anos reprimiu tudo o que era cultura e liberdade de um povo para o

qual sempre tive o maior orgulho em trabalhar. Sofri como todos, os

condicionamentos da descolonização. Vivi o 25 de Abril com uma

esperança renovada, e alegrei-me pela conquista do voto, como se isso

fosse um epítome libertador.


Subi aos palcos centenas, senão milhares de vezes, da forma que melhor

sei, porque para tal muito trabalhei.


Continuei a votar, a despeito das mentiras que os políticos utilizaram

para me afastar do Teatro Nacional. Contudo, voltei a esse teatro pelo

respeito que o meu público me merece, muito embora já coxo pelo

desencanto das políticas culturais de todos os partidos, sem excepção,

porque todos vós sois cúmplices da acrescida miséria com que se tem

pintado o panorama cultural português.


Hoje, para o Fisco, deixei de ser Actor. e comigo, todos os meus

colegas Actores e restantes Artistas destes país - colegas que muito

prezo e gostava de poder defender.


Tudo isto ao fim de setenta anos de carreira! É fascinante.

Francamente, não sei para que servem as comendas, as medalhas e as

Ordens, que de vez em quando me penduram ao peito?


Tenho 86 anos, volto a dizer, para que ninguém esqueça o meu direito a

não ser incomodado pela raiva miudinha de um Ministério das Finanças,

que insiste em afirmar, perante o silêncio do Primeiro-Ministro e os

olhos baixos do Presidente da República, de que eu não sou actor, que

não tenho direito aos benefícios fiscais, que estão consagrados na

lei, e que o meu trabalho não pode ser considerado como propriedade

intelectual.


Tenho pena de ter chegado a esta idade para assistir angustiado à

rapina com que o fisco está a executar o músculo da cultura

portuguesa. Estamos a reduzir tudo a zero. a zeros, dando cobertura a

uma gigantesca transferência dos rendimentos de quem nada tem para os

que têm cada vez mais.


É lamentável e vergonhoso que não haja um único político com

honestidade suficiente para se demarcar desta estúpida cumplicidade

entre a incompetência e a maldade de quem foi eleito com toda a boa

vontade, para conscientemente delapidar a esperança e o arbítrio de

quem, afinal de contas, já nem nas anedotas é o verdadeiro dono de

Portugal: nós todos!


É infame que o Direito e a Jurisprudência Comunitárias sirvam só para

sustentar pontualmente as mentiras e os joguinhos de poder dos

responsáveis governamentais, cujo curriculum, até hoje, tem

manifestamente dado pouca relevância ao contexto da evolução

sociocultural do nosso povo. A cegueira dos senhores do poder

afasta-me do voto, da confiança política, e mais grave ainda, da

vontade de conviver com quem não me respeita e tem de mim a imagem de

mais um velho, de alguém que se pode abusiva e irresponsavelmente

tirar direitos e aumentar deveres.


É lamentável que o senhor Ministro das Finanças, não saiba o que são

Direitos Conexos, e não queiram entender que um actor é sempre autor

das suas interpretações - com diretos conexos, e que um intérprete

e/ou executante não rege a vida dos outros por normas de Exel ou por

ordens "superiores", nem se esconde atrás de discursos catitas ou

tiradas eleitoralistas para justificar o injustificável,

institucionalizando o roubo, a falta de respeito como prática dos

governos, de todos os governos, que, ao invés de procurarem a

cumplicidade dos cidadãos, se servem da frieza tributária para

fragilizar as esperanças e a honestidade de quem trabalha, de quem

verdadeiramente trabalha.


Acima de tudo, Senhores Ministros, o que mais me agride nem é o facto

dos senhores prometerem resolver a coisa, e nada fazer, porque isso já

é característica dos governos: o anunciar medidas e depois voltar

atrás. Também não é o facto de pôr em dúvida a minha honestidade

intelectual, embora isso me magoe de sobremaneira. É sobretudo o nojo

pela forma como os seus serviços se dirigem aos contribuintes,

tratando-nos como criminosos, ou potenciais delinquentes, sem olharem

para trás, com uma arrogância autista que os leva a não verem que há

um tempo para tudo, particularmente para serem educados com quem gera

riqueza neste país, e naquilo que mais me toca em especial, que já é

tempo de serem respeitadores da importância dos artistas, e que devem

sê-lo sem medos e invejas desta nossa capacidade de combinar verdade

cénica com artifício, que é no fundo esse nosso dom de criar, de ser

co-autores, na forma, dos textos que representamos.


Permitam-me do alto dos meus 86 anos deixar-lhes um conselho:

aproveitem e aprendam rapidamente, porque não tem muito tempo já.

Aprendam que quando um povo se sacrifica pelo seu país, essa gente, é

digna do maior respeito. porque quem não consegue respeitar, jamais

será merecedor de respeito!


RUY DE CARVALHO